sexta-feira, janeiro 2, 2026
HomeNEWS IN PORTUGUESEMoçambique é o segundo país com mais pobres em África

Moçambique é o segundo país com mais pobres em África

Moçambique ocupa uma posição crítica no ranking de pobreza extrema em África — com mais de 8 em cada 10 habitantes vivendo abaixo da linha internacional de pobreza – segundo dados recentes do World Bank. Em paralelo, o continente africano continua a figurar entre os mais afectados, não apenas em termos absolutos, mas em taxas proporcionais.

Os últimos relatórios apontam que a pobreza extrema, definida como viver com menos de US$ 3 por dia (paridade de poder de compra internacional), segue a persistir em muitos países da África subsaariana, com factores como a fraca industrialização, altos níveis de informalidade e dependência externa de ajudas como condicionantes.

No caso de Moçambique, embora o número exato para “menos de 3 USD/dia” possa variar conforme a fonte, vários dados credíveis confirmam:

  • A taxa de pobreza abaixo da linha de US$ 3/dia (2021 PPP) atingiu cerca de 82,24 % em 2019. (pip.worldbank.org)
  • Sob a linha de “US$ 1,90/dia (2011 PPP)”, o indicador registou 74,5 % em 2019. (TheGlobalEconomy.com)
  • O relatório oficial da World Bank para Moçambique notifica que a taxa de pobreza segundo a “linha global” foi de 63,7 % em 2014, com a tendência de piorar em anos mais recentes. (databankfiles.worldbank.org)
  • Também, o relatório “Overview – Mozambique” da World Bank (outubro 2025) refere que a pobreza nacional (linha doméstica) subiu para cerca de 62,8% em 2019/20. (World Bank)

Estes números colocam Moçambique entre os países com maiores desafios de erradicação da pobreza no continente africano.

Por que os números divergem e o que realmente significam

Quando se lê que “Moçambique ocupa a segunda posição dos países mais pobres da África” e que “82,2% da população vive com menos de 3 US$/dia”, convém clarificar alguns fatores metodológicos e de fonte:

  • A linha de “US$ 3/dia” é uma aproximação recente para medir a pobreza extrema ou “linha moderada” internacional.
  • Nem todas as bases de dados actualizam exactamente no mesmo ano ou definem “menos de 3 US$/dia” da mesma forma.
  • No relatório da World Bank: “Poverty rate at $3 a day (2021 PPP) (% of population)” aparece para Moçambique como 82,24% em 2019. (pip.worldbank.org)
  • A pobreza sob a “linha nacional” (domiciliar) é menor do que a linha global, mas continua alta — o que significa que a maioria da população vive com rendimento muito abaixo de padrões internacionais.
  • Também é importante considerar que “pobreza extrema” não é apenas rendimento/income, mas muitas vezes consumo, privação de acesso a serviços, entre outros. Por exemplo, segundo o Oxford Poverty & Human Development Initiative (OPHI), o Índice de Pobreza Multidimensional (MPI) para Moçambique apontava, em zonas rurais, que 77,1% da população eram “multidimensionalmente pobres”. (OPHI)

Portanto, embora seja legível — e comprensível — afirmar que “Moçambique é o segundo país com mais pobres da África” (apesar de não achar uma lista oficial com exacta classificação para todos os países contemporâneos que confirme em simultâneo DRC 85,3% e Moçambique 82,2%), os dados credíveis suportam fortemente que Moçambique está entre os países mais afectados — com taxas acima de 80% sob as linhas globais de pobreza.

As causas estruturais da pobreza no país

Dependência da ajuda externa e fraca base produtiva

Um dos grandes problemas estruturais apontados por analistas é que o país tem dependido fortemente de formulários de “consumo” ou de ajudas externas, ao invés de criar e diversificar linhas de produção com elevado valor acrescentado. Como indica o relatório da World Bank: “Agriculture employs over 70% of the population but struggles with low productivity, climate change-related vulnerabilities, and insufficient investment in infrastructure and inputs.” (The World Bank Docs)

Agricultura, informalidade e ruralidade

  • A agricultura sustenta a maioria das famílias pobres, sobretudo no meio rural, mas enfrenta desafios de produtividade, de acesso a insumos e de segurança climática. (The World Bank Docs)
  • O sector informal domina o mercado de trabalho, com fraca segurança social, baixos salários e exposição a riscos económicos. O mesmo documento refere que “informal sector … accounts for over 80 per cent of employment”. (The World Bank Docs)
  • O abismo entre áreas urbanas e rurais permanece enorme: por exemplo, no âmbito do MPI, a pobreza multidimensional em zonas rurais era de 77,1 % vs 33,6 % em zonas urbanas. (OPHI)

Instabilidade, investimento externo e indústria com pouca escala

Outro factor é a instabilidade política ou de segurança que fragiliza o ambiente de investimento. Embora Moçambique disponha de riquezas naturais significativas e projectos de grande escala (por exemplo em gás natural ou energia) a tradução em benefícios para a população geral e para o emprego doméstico tem sido lenta. A fraca industrialização também limita a absorção de mão-de-obra em sectores mais produtivos.

Impactos recentes: dívida oculta, pandemia e catástrofes naturais

O recente relatório overview da World Bank aponta que a taxa de pobreza aumentou — entre 2014/15 e 2019/20 a pobreza nacional (linha doméstica) aumentou de 48,4% para 62,8% (um aumento de cerca de 7 milhões de pessoas) — motivado por “hidden debt crisis, COVID-19, and natural disasters”. (World Bank)

 

Comparação com outros países africanos e contexto regional

Para dar uma perspetiva global-regional:

  • É frequentemente citado que a República Democrática do Congo (RDC) teria cerca de 85,3% da população abaixo da linha de pobreza extrema (menos de 3 USD/dia) num conjunto de dez países mais pobres de África.
  • Embora não tenha conseguido encontrar uma fonte pública que confirme exactamente “85,3% para a RDC e 82,2% para Moçambique” nessa ordem de lista, os números para a RDC efectivamente indicam percentagens muito elevadas de pobreza extrema. (Ex: a Wikipédia aponta cerca de 74,6% para menos de US$2,15/dia em 2023 para a RDC). (Wikipedia)
  • Em Moçambique, com 82,24% sob o limiar global de US$3/dia em 2019, estamos num dos extremos do espectro continental. (pip.worldbank.org)
  • A própria Visual Capitalist e outros artigos sobre pobreza global destacam que, de entre os 30 países com mais elevados níveis de pobreza extrema, cerca de 20 são africanos.

Este panorama confirma que a África subsaariana continua a carregar o grosso da pobreza extrema no mundo — fatores como crescimento económico fraco, pouca industrialização, elevado desemprego, além de choques externos, explicam a persistência. Por exemplo, relatório da Reuters sobre a África subsaariana diz que o crescimento projetado (3,4% em 2023, 3,8% em 2024) “não é suficiente para reduzir significativamente a pobreza”. (Reuters)

Porque a pobreza persiste apesar de crescimento económico

Embora Moçambique tenha registado períodos de crescimento económico forte (por exemplo anos 2000-2010) esse crescimento não se traduziu de forma generalizada em melhoria das condições de vida para toda a população. Exemplos:

  • Segundo o relatório “Mozambique Poverty Assessment – 2018” da World Bank, a taxa de pobreza monetária caiu de 60,3% em 2002-03 para 48,4% em 2014-15. (IEG World Bank Group)
  • No entanto, a mesma avaliação sublinha que o “shared prosperity premium” (crescimento do consumo dos 40% mais pobres comparado com média nacional) era negativo: ou seja, os mais pobres cresceram mais lentamente do que a média. (databankfiles.worldbank.org)
  • A desigualdade (índice Gini) aumentou: havia mais desigualdade entre ricos e pobres, o que significa que ganhos de renda/consumo nem sempre foram distribuídos. (databankfiles.worldbank.org)

Estes fatores ajudam a explicar porque Moçambique, apesar de ter recursos naturais e projectos de investimento, continua com taxas recorde de pobreza. Sem um modelo de crescimento inclusivo — que permita absorver mão-de-obra, melhorar produtividade, investir em infra-estrutura básica, saúde, educação — o crescimento económico não traduz em melhoria real para vastas camadas da população.

Impactos humanos e sociais da pobreza extrema

Quando mais de 8 em cada 10 pessoas vivem com o que internacionalmente se considera pouco mais do que $3 por dia, os impactos são profundamente gravosos:

  • Acesso limitado a serviços básicos como água potável, saneamento, saúde e educação.
  • Alta vulnerabilidade a choques externos — catástrofes climáticas, pandemias, crises de dívida.
  • Círculos de pobreza intergeracionais: zonas rurais, com agricultura de subsistência, baixa produtividade e fraca conectividade, ficam ‘presas’.
  • Segmentos da população — mulheres, crianças, minorias rurais — são mais afectados pela pobreza multidimensional (que considera privação em múltiplas dimensões, não apenas rendimento).
  • Em Moçambique, a insegurança alimentar é elevada: por exemplo, estimativas indicam que cerca de 64% da população enfrenta insegurança alimentar, com regiões como o sul a registarem até 75%. (Wikipedia)

Estes fenómenos criam não apenas uma crise económica, mas uma crise de desenvolvimento humano: potencial humano não realizado, instabilidade social, dificulta de mobilidade económica e social.

Perspectivas e caminhos de saída

Linhas de ação necessárias

Para alterar este cenário e fazer com que o crescimento económico beneficie de forma ampla a população, Moçambique precisa de concentrar-se em vários eixos simultâneos:

  1. Desenvolver valor produtivo doméstico — agricultura moderna, agro-processamento, pequenas e médias indústrias, incentivar emprego formal.
  2. Melhorar infra-estrutura e conectividade rural — estradas, energia, telecomunicações. Por exemplo, um grande projecto hidroeléctrico está em curso para melhorar o acesso à energia, o que pode apoiar modelos de negócios rurais. (Ver projecto da barragem no Zambeze) (AP News)
  3. Focar em inclusão social e redução da desigualdade — assegurar que os beneficiários do crescimento sejam também os mais vulneráveis, investir em educação, saúde, infra-estrutura social.
  4. Governança, estabilidade e ambiente de investimento — atrair investimento externo, mas assegurar que haja retorno social, transparência e que parte significativa dos recursos resulte em local.
  5. Resiliência a choques — desastre climático, pandemias, dívida externa. Construir redes de protecção social, diversificar economia, gerir dívida de forma sustentável.

Possíveis sinais de esperança

  • No relatório mais recente da World Bank, a pobreza nacional (linha doméstica) aumentou para 62,8% em 2019/20, mas o facto de existir monitorização e dados tão frequentes permite definir estratégias e acompanhar impacto. (World Bank)
  • A iniciativa de electrificação e infra-estrutura pode abrir oportunidades para Economia rural + pequenas empresas + emprego.
  • O reconhecimento internacional de que a pobreza extrema está cada vez mais concentrada em países com fragilidade institucional ou em guerra (ex: relatório da World Bank para 39 países). (The Wall Street Journal)

Atenção às metas e riscos

  • Mesmo com crescimento económico, se o mesmo não for ‘inclusivo’ e não se dispersar de maneira equilibrada, a pobreza continua.
  • O risco de estagnação ou de retrocesso existe se não forem corrigidos os desequilíbrios: área rural vs urbana, formal vs informal, riqueza dos recursos vs benefício para população.
  • O contexto externo (choques económicos globais, subida das taxas de juro, clima) pode agravar ainda mais a situação. Como referem os analistas: para a África subsaariana “o ritmo de expansão económica continua lento e insuficiente para ter efeito significativo na redução da pobreza”. (Reuters)

Moçambique está frente a uma encruzilhada: os mais de 80% da população vivendo abaixo da linha de cerca de US$3 por dia demonstram que o país não pode ser simplesmente descrito como “um país em desenvolvimento lento”, mas sim como um país em que o desenvolvimento económico ainda não se traduziu em melhoria generalizada das condições de vida. Se nada mudar, centenas de milhares — senão milhões — continuarão presos num ciclo de pobreza extrema, o que compromete não apenas a justiça social, mas o próprio potencial de crescimento futuro.

Para que Moçambique vá além da dependência da ajuda externa e do crescimento que beneficia apenas alguns, é necessário romper com as estruturas vigentes — apostar forte na produção, no emprego de qualidade e no desenvolvimento humano —. Se estas condições não forem atendidas, o país corre o risco de manter-se na segunda fila dos países com mais pobres do planeta. Mas, se as condições forem reunidas, a transformação pode ser profunda: cada pessoa que sair da pobreza extrema significa não apenas uma vida melhorada, mas uma sociedade mais estável, um país mais próspero e uma geração futura com mais esperança.

O momento de agir é agora: Moçambique não pode esperar mais.

 

RELATED ARTICLES

Most Popular

Recent Comments