Kremlin exibe peça de drone a diplomata dos EUA numa tentativa explícita de influenciar Donald Trump e legitimar uma acusação que a inteligência americana diz não existir
A Rússia voltou a apostar na guerra da narrativa — e Donald Trump surge, mais uma vez, como alvo preferencial. Desta vez, o Kremlin encenou uma apresentação pública de supostas “provas” de um ataque ucraniano à residência do presidente Vladimir Putin, numa manobra vista por analistas como uma tentativa direta de testar até onde Trump está disposto a engolir versões fabricadas dos factos.
Na quinta-feira, em Moscovo, um alto responsável militar russo entregou a um adido militar dos Estados Unidos um fragmento de drone que, segundo o Ministério da Defesa da Rússia, teria sido usado numa alegada tentativa de ataque à casa de Putin, na região de Novgorod.
O detalhe central: o ataque nunca aconteceu, segundo conclusões da CIA.
Kremlin encena “prova” para consumo político
O momento foi cuidadosamente coreografado. Em reunião televisionada, o almirante Igor Kostyukov, chefe da Direcção Principal do Estado-Maior das Forças Armadas russas, apresentou o componente do drone como evidência irrefutável.
Segundo ele, a análise do controlador de navegação provaria “sem qualquer dúvida” que o alvo era o complexo residencial do presidente russo.
“A descodificação da memória do controlador confirma inequivocamente que o objetivo era a residência presidencial”, afirmou Kostyukov, citado pela Reuters.
A escolha das palavras não foi inocente. O Kremlin sabe que a palavra ‘inequivocamente’ pesa no jogo político, mesmo quando os factos dizem o contrário.
Trump caiu — e depois recuou
O episódio ganha relevo porque ocorre poucos dias depois de Donald Trump ter afirmado publicamente que estava perto de um acordo com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky para encerrar a guerra.
Logo a seguir, após uma chamada com Putin, Trump demonstrou irritação com Kyiv e deu crédito à versão russa do suposto ataque.
Quando questionado se os Estados Unidos tinham provas, respondeu:
“Vocês dizem que talvez o ataque não tenha ocorrido — isso é possível, eu acho — mas o presidente Putin disse-me hoje de manhã que aconteceu.”
Horas depois, o cenário mudou. Trump partilhou nas redes sociais um editorial crítico a Putin, depois de ter sido informado pela CIA de que o ataque à residência presidencial foi inventado.
O detalhe técnico que desmonta a narrativa
A nova “prova” russa parece frágil até para observadores leigos.
Especialistas em drones, entusiastas da aviação e bloggers militares ucranianos apontaram rapidamente um problema básico:
o modelo de controlador exibido — MATEK H743 — é usado normalmente em drones de curto alcance.
Na prática, não teria autonomia técnica para percorrer centenas de quilómetros e atingir uma residência presidencial altamente protegida.
Mesmo assim, Moscovo afirmou ter intercetado 91 drones ucranianos, descrevendo o episódio como uma tentativa de assassinato.
O que dizem os serviços de inteligência dos EUA
A versão russa foi rejeitada de forma clara por Kyiv — e também por Washington.
De acordo com informações avançadas pelo The Wall Street Journal, a inteligência americana concluiu que:
- A Ucrânia tentou atingir um alvo militar russo na mesma região
- Não houve qualquer ataque à residência de Putin
- A narrativa do Kremlin mistura deliberadamente localização geográfica com intenção política
É um padrão conhecido da máquina de propaganda russa.
Ego, manipulação e diplomacia tóxica
O Kremlin não esconde a estratégia: falar diretamente ao ego de Trump.
O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, chegou a afirmar que a alegada operação ucraniana visava “sabotar os esforços do presidente Trump para alcançar a paz”.
A mensagem é clara:
“Se algo corre mal, a culpa é da Ucrânia — e Trump é a vítima.”
Até agora, a Casa Branca não comentou oficialmente a inspeção do fragmento de drone entregue ao diplomata americano.
Quem está a testar quem?
O episódio expõe uma verdade incómoda:
a guerra na Ucrânia já não se trava apenas com mísseis, mas com narrativas feitas à medida de líderes específicos.
A Rússia sabe que Trump reage à validação pessoal, à dramatização e ao conflito direto. E continua a testar os limites.
A pergunta que fica é simples e desconfortável:
quantas vezes mais versões fabricadas serão necessárias até que a desinformação deixe de ser tratada como “possibilidade”?
O que você pensa sobre este jogo de bastidores entre Moscovo e Washington? Acha que Trump ainda pode voltar a cair? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo.