Autoridades expõem conspiração que previa execuções seletivas, explosivos e envolvimento de redes militares e civis para desestabilizar o Sahel
Burkina Faso voltou ao centro das atenções geopolíticas africanas depois de o Governo confirmar o desmantelamento de uma tentativa de golpe de Estado que tinha como objectivo central o assassinato do Presidente Ibrahim Traoré e a eliminação de altas figuras do aparelho estatal. As revelações foram feitas esta quarta-feira (7) pelo ministro da Segurança, Mahamadou Sana, num pronunciamento televisionado que expôs detalhes sensíveis da operação frustrada.
Segundo Sana, o plano foi neutralizado no dia 3 de Janeiro, graças à actuação combinada dos serviços de inteligência e das forças de defesa. A conspiração, afirmou, estava bem estruturada, financiada a partir do exterior e envolvia tanto militares quanto civis, com a intenção clara de provocar o caos interno e abrir caminho para uma intervenção militar estrangeira no país do Sahel.
Um ataque cirúrgico planeado para a noite
De acordo com as autoridades, o atentado estava marcado para as 23 horas, horário local. O plano previa assassinatos selectivos de dirigentes civis e militares, começando pelo próprio Chefe de Estado. Ibrahim Traoré seria eliminado a tiros ou através de explosivos colocados na sua residência oficial.
“Tratava-se de uma operação de alto risco, pensada ao pormenor”, indicou Sana, sublinhando que o objectivo era decapitar o comando do Estado em poucas horas.
Entre as acções previstas constava ainda a neutralização de uma base estratégica de drones, medida que visava impedir qualquer resposta rápida das forças governamentais.
Duas redes, um só objectivo: derrubar o poder
As investigações revelaram a existência de duas estruturas paralelas dentro da conspiração:
Rede militar
Responsável por recrutar efectivos uniformizados e formar grupos de acção armada encarregados das execuções e do controlo de pontos estratégicos.
Rede civil
Dedicada à mobilização de civis que acompanhariam os golpistas, criando a aparência de um levantamento popular e ampliando o clima de instabilidade.
Esta engenharia tinha um propósito político claro: legitimar pressões externas e justificar uma eventual intervenção internacional.
Dinheiro vindo de fora e um nome-chave
As autoridades apontam o ex-tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba como o principal mentor da operação. Segundo o ministro da Segurança, Damiba teria concebido o plano, coordenado os contactos e assegurado o financiamento.
Parte significativa dos fundos, explicou Sana, veio do exterior, com destaque para uma transferência recente de 70 milhões de francos CFA provenientes da Costa do Marfim, o equivalente a cerca de 125 mil dólares norte-americanos. O dinheiro destinava-se a sustentar a logística e a escalada do conflito.
Mobilização popular frustra a conspiração
Um dos pontos destacados pelo Governo foi a reacção popular em Ouagadougou na noite em que o ataque deveria ocorrer. Cidadãos mobilizaram-se espontaneamente para proteger o Presidente e demonstrar apoio às instituições, factor que contribuiu para o fracasso do plano.
Apesar disso, Sana apelou à população para manter a calma, vigilância e discernimento, alertando para tentativas de manipulação destinadas a empurrar civis contra a ordem constitucional vigente.
O pano de fundo regional e o factor Sahel
A tentativa de golpe ocorre num momento delicado, em que Burkina Faso, Mali e Níger aprofundam um projecto político conjunto através da Associação dos Estados do Sahel (AES). A iniciativa, de inspiração anti-colonial e pan-africanista, visa reforçar a soberania regional e reduzir a dependência de antigas potências coloniais.
Entre as medidas já anunciadas pela AES estão:
- Criação de um banco de desenvolvimento regional
- Implementação de um passaporte unificado
- Lançamento de uma rádio e televisão do Sahel
- Melhoria das ligações aéreas e ferroviárias
- Estímulo ao comércio intra-regional
- Formação de uma força militar conjunta de 5 mil soldados para combater grupos armados
Os três países também assumiram o compromisso de apoio militar mútuo caso qualquer deles tenha a sua soberania ameaçada por actores externos.
estabilidade sob pressão
O fracasso desta tentativa de golpe expõe não apenas fragilidades internas, mas também as tensões geopolíticas que rodeiam o novo eixo do Sahel. O Governo garante que a situação está sob controlo e que todos os envolvidos serão responsabilizados, mas o episódio levanta uma questão incontornável: até que ponto projectos de soberania africana continuarão a enfrentar resistência externa?
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