Consumidores acusam operadoras e regulador de falta de transparência enquanto custos disparam e megabytes desaparecem em minutos
Moçambique vive, nas últimas semanas, uma tensão crescente no sector das telecomunicações. O que antes era um gasto mensal controlável transformou-se, de forma abrupta, num peso difícil de sustentar para famílias, estudantes, pequenos negócios e criadores de conteúdo. Há cidadãos que relatam ter passado de mil meticais por mês para mais de três mil meticais em internet, sem qualquer explicação pública clara.
O problema não é apenas o preço. É a sensação generalizada de que os dados móveis estão a desaparecer a uma velocidade anormal, muitas vezes em poucos minutos, mesmo quando o utilizador garante não estar a consumir conteúdos pesados ou sequer com os dados activados.
Um consumo que já não faz sentido
Pacotes anunciados como 4 GB válidos por uma semana estariam, segundo múltiplos relatos, a esgotar-se em dez minutos — ou menos. Em alguns casos, o saldo de dados desaparece antes mesmo de o telemóvel estabelecer ligação efectiva à internet.
Este padrão, repetido em diferentes operadoras, levantou suspeitas sérias entre os consumidores, que exigem respostas do Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique (INCM), da Vodacom, da Movitel e dos decisores do sector.
Não se trata de uma reclamação isolada. As redes sociais estão inundadas de queixas, capturas de ecrã, vídeos e testemunhos que apontam para um problema estrutural e não para casos pontuais.
Silêncio que agrava a crise
Até agora, nenhuma das entidades visadas veio a público explicar, de forma detalhada e verificável, o que mudou de um dia para o outro. Não houve comunicados técnicos, relatórios de auditoria, nem esclarecimentos pedagógicos ao consumidor.
A justificação genérica da “modernização tecnológica” já não convence. Modernizar não pode significar cobrar mais e entregar menos, sobretudo sem aviso prévio e sem consentimento informado dos utilizadores. Sem dados concretos, essa narrativa começa a ser vista como uma cortina de fumo.
Para muitos consumidores, a situação já ultrapassa o campo da má prestação de serviços e entra no terreno da violação dos direitos do consumidor, com contornos que alguns classificam abertamente como roubo.
Internet: luxo ou direito básico?
Há muito que a internet deixou de ser um simples serviço complementar. Hoje, é ferramenta de trabalho, educação, acesso à informação, participação cívica e sobrevivência económica. Em vários países, o acesso à internet é tratado como direito essencial e, em certos contextos, disponibilizado gratuitamente ou a preços simbólicos.
Em Moçambique, o discurso oficial aponta para a massificação do acesso, inclusive nas zonas rurais. No terreno, porém, o que se observa é o contrário: custos crescentes, opacidade na tarifação e um consumo inexplicável de dados que está a corroer a confiança do público.
Impacto directo na economia real
Empreendedores digitais, pequenas empresas, jornalistas, estudantes e trabalhadores independentes estão entre os mais afectados. Muitos dependem exclusivamente da internet móvel para operar. Com os custos actuais, vários projectos tornam-se inviáveis.
Este desgaste já começa a transbordar para o espaço físico. Há registo de protestos simbólicos em frente a lojas de operadoras, com cartazes exigindo explicações. O clima é de frustração acumulada — e a história recente do país mostra que o silêncio institucional, nestes contextos, costuma ter consequências.
O que precisa ser explicado — com urgência
A sociedade espera respostas objectivas:
- Houve alteração nos sistemas de tarifação ou contagem de dados?
- Que investimentos recentes justificam o aumento efectivo dos custos para o consumidor?
- Existem auditorias independentes sobre a medição do consumo de dados?
- Por que razão os utilizadores não foram informados previamente sobre mudanças tão significativas?
Sem estas respostas, o descrédito recai não só sobre as empresas, mas também sobre o regulador e o próprio Estado, que tem a responsabilidade de proteger o interesse público.
Conclusão: ignorar não vai resolver
O actual cenário é insustentável. Os bolsos estão a sangrar, a paciência está no limite e a confiança está quebrada. Ignorar o problema não o fará desaparecer. Pelo contrário, aumenta o risco de instabilidade social e de um conflito aberto entre consumidores, empresas e instituições.
A pergunta que fica é simples e directa: até quando o cidadão moçambicano terá de pagar mais por um serviço cada vez pior, sem direito a explicações claras?
O que você pensa sobre isso?
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