Ex-seleccionador diz sair de “consciência tranquila”, lembra o caos que encontrou na selecção e deixa recado que expõe fragilidades do futebol moçambicano
A saída de Chiquinho Conde do comando técnico da selecção nacional não passou despercebida — nem podia. Mais do que uma simples rescisão contratual, o episódio escancarou tensões antigas entre resultados desportivos, gestão institucional e a falta de uma visão clara para o futebol moçambicano.
Notificado electronicamente pela Federação Moçambicana de Futebol (FMF) sobre o fim do vínculo, válido até 31 de Janeiro, o agora ex-seleccionador reagiu com serenidade, mas sem abdicar da franqueza que sempre marcou a sua trajectória.
“Saio de consciência tranquila”, afirmou, convicto de que cumpriu o principal objectivo que lhe foi confiado quando assumiu os Mambas, em 2021: levar Moçambique ao Campeonato Africano das Nações (CAN).
O estado dos Mambas em 2021: mais do que táctica, um resgate emocional
Uma das declarações mais marcantes de Chiquinho Conde resume, em tom irónico, o cenário que encontrou ao chegar à selecção:
“Quando cheguei, todo o mundo tomava paracetamol.”
A metáfora não foi gratuita. Serviu para ilustrar um balneário fragilizado, mergulhado em derrotas consecutivas, com níveis baixos de confiança e pouca crença num projecto colectivo. Segundo o técnico, o desafio ultrapassava o campo táctico: era preciso reconstruir a identidade, a auto-estima e o espírito competitivo dos Mambas.
E isso, sublinhe-se, foi feito num contexto de recursos limitados, pressão constante e expectativas muitas vezes desalinhadas com a realidade estrutural do futebol nacional.
Reunião falhada e ruído institucional
Outro ponto sensível foi a polémica em torno da ausência de Chiquinho Conde numa reunião recentemente convocada pela FMF. O treinador esclareceu que motivos de saúde impediram a sua presença, afastando leituras de boicote ou confronto institucional.
Ainda assim, o episódio expôs algo mais profundo: falhas graves de comunicação, ausência de diálogo estratégico e um ambiente pouco transparente — problemas que não são novos no historial da selecção moçambicana.
Mais do que treinador: uma figura histórica dos Mambas
A saída ganha peso adicional quando se olha para o percurso pessoal de Chiquinho Conde. Antigo capitão da selecção durante 18 anos, trata-se de uma das figuras mais emblemáticas do futebol nacional, alguém que conhece os Mambas por dentro, no campo e fora dele.
Essa ligação emocional transforma a rescisão num acto que vai além da dimensão técnica. Há aqui uma carga simbólica, institucional e até política, que não pode ser ignorada.
A FMF e as perguntas que voltam a insistir
Com a decisão tomada, a FMF abre um novo ciclo. Mas também ressuscita velhas interrogações:
❓ Qual é, afinal, a visão de longo prazo para a selecção nacional?
❓ Resultados imediatos valem mais do que estabilidade e continuidade?
❓ Que modelo de liderança se pretende para devolver consistência aos Mambas?
Sem respostas claras, o risco é repetir um padrão já conhecido: mudanças frequentes, projectos interrompidos e expectativas frustradas.
Conclusão: mudou o treinador, mas o problema continua?
O caso Chiquinho Conde volta a expor as fragilidades estruturais do sistema futebolístico moçambicano. Sai um treinador com resultados discutíveis, sim, mas também com legado, contexto e história.
Resta saber se a famosa dor de cabeça foi realmente curada — ou se o paracetamol apenas mudou de mãos.
E você, acredita que a saída de Chiquinho Conde resolve os problemas da selecção ou apenas adia um debate mais profundo?
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