O presidente da Renamo confirmou pessoalmente aos generais do partido que deixará o cargo ainda em 2026 — e a contagem decrescente já começou
Um Adeus Anunciado Diante dos Homens de Farda
Havia tensão no ar em Chimoio. Na capital da província de Manica, generais e oficiais superiores da Renamo reuniram-se numa cúpula interna que poucos esperavam que trouxesse uma declaração tão definitiva. Foi ali, longe dos holofotes da capital Maputo, que Ossufo Momade reiterou pessoalmente a sua intenção de abandonar a presidência do partido ainda este ano.
A confirmação não chegou por comunicado. Saiu da boca do próprio líder, diante dos quadros mais graduados da Resistência Nacional Moçambicana. Segundo o porta-voz da reunião, Hermínio Morais, Momade foi claro: está a preparar a sua saída e quer garantir que o seu sucessor herde um ambiente estável — não as brasas de um partido em chamas.
Sete Anos no Comando, Entre Paz e Turbulência Interna
Momade chegou à liderança da Renamo em circunstâncias dramáticas. Em 2019, assumiu o cargo no VI Congresso realizado em Gorongosa, na província de Sofala, após a morte do histórico fundador Afonso Dhlakama, falecido de doença em 2018. Herdou não apenas um partido, mas uma organização ainda a digerir o fim de décadas de conflito armado.
Em 2024, foi reeleito no congresso de Alto Molócuè, na Zambézia. Parecia uma renovação de mandato sólida. Mas o cenário político moçambicano — especialmente após as contestadas eleições gerais de outubro de 2024 — mudou radicalmente o equilíbrio interno dos partidos da oposição.
A Renamo, outrora a principal força de oposição do país, viu-se ultrapassada pela Frelimo no poder e pressionada por um eleitorado crescentemente atraído por outras forças políticas. A contestação interna a Momade foi-se acumulando como água atrás de uma barragem.
O Partido que Fechou as Portas — Literalmente
Um detalhe revelado na reunião de Chimoio diz muito sobre o estado da Renamo: várias sedes provinciais encontram-se encerradas. Não por falta de membros, mas por falta de coesão, recursos e, sobretudo, de direção unificada.
Morais admitiu publicamente que “o partido não tem funcionado adequadamente” — uma confissão rara vinda de dentro da própria estrutura. A decisão de reabrir essas sedes com carácter prioritário sinaliza que a crise interna chegou a um ponto em que ignorá-la deixou de ser uma opção.
Os responsáveis pelo encerramento de delegações e pela criação de distúrbios foram chamados à responsabilidade durante o encontro. Não foram dados nomes, mas a mensagem foi clara: a era da tolerância com a indisciplina terminou.
O Que Vem a Seguir: Congresso, Eleições e um Nome que Ninguém Conhece
Com a saída de Momade no horizonte, a Renamo enfrenta agora o desafio mais delicado da sua história recente: encontrar um líder capaz de regenerar o partido antes das autárquicas de 2028 e das gerais de 2029.
O calendário interno já está traçado. Ainda no primeiro semestre de 2026, está prevista a realização do Conselho Nacional, e antes de junho deverá ser marcada a data do Congresso — que poderá ter carácter ordinário ou extraordinário, dependendo das circunstâncias.
O nome do sucessor permanece, por ora, envolto em silêncio estratégico. Momade quer entregar o partido em condições — não como um fardo, mas como uma herança com valor.
“A Família Está Unida” — Mas Até Quando?
Hermínio Morais encerrou a sua declaração com uma nota de otimismo: “A família da Renamo está unida. Alcançámos consensos importantes nesta reunião.”
Na política moçambicana, como em qualquer outra, a unidade proclamada numa sala fechada raramente sobrevive intacta ao escrutínio público. O verdadeiro teste à coesão da Renamo virá nos próximos meses, quando os nomes dos candidatos à liderança começarem a circular — e os interesses divergirem.
O que está em jogo não é apenas uma cadeira partidária. É o papel da oposição histórica moçambicana num momento em que o país enfrenta desafios políticos, económicos e sociais sem precedentes recentes.
O Fim de um Ciclo, o Início de uma Incógnita
A saída anunciada de Ossufo Momade marca o encerramento de um ciclo iniciado com a morte de Dhlakama — o homem que durante décadas foi a própria encarnação da Renamo. Momade tentou ser outra coisa: um líder de paz, de transição, de institucionalização. Com resultados mistos.
O que a Renamo fizer nos próximos meses dirá muito sobre a saúde da democracia moçambicana. Um partido de oposição forte é, paradoxalmente, uma necessidade do próprio país — independentemente de quem se vote.
O que pensa sobre o futuro da Renamo após a saída de Momade? Quem deveria liderar o partido? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo com quem acompanha a política moçambicana.