Enquanto a segunda maior força da oposição moçambicana implode por dentro, o seu líder surge escoltado por polícias a uma reunião do próprio partido — e isso diz tudo sobre a crise que ninguém quer nomear em voz alta.
Um líder que chega com escolta ao próprio partido
Há algo profundamente revelador quando um dirigente político precisa de chegar acompanhado de agentes da polícia a uma reunião interna do seu próprio partido. Foi exatamente isso que aconteceu em Manica, quando Ossufo Momade surgiu no encontro de generais e oficiais superiores da RENAMO com a sua equipa — e com fardas à volta.
Não foi um detalhe protocolar. Foi um sinal.
A tensão que a RENAMO carrega nas suas entranhas há mais de um ano encontrou naquele momento um rosto visível, quase fotográfico. O partido que durante três décadas foi a alternativa ao poder da FRELIMO atravessa hoje uma das crises mais profundas da sua história pós-guerra.
“Assaltar o poder não é o nosso vocabulário”
No palanque, Momade foi direto — e as suas palavras revelaram muito sobre o que se passa nos corredores internos da perdiz:
“Não é altura aqui de alguém dizer que ‘vou ser presidente’. Querer assaltar o poder não é a nossa regra, não é nosso vocabulário. Assaltar, fazer golpe, não senhor!”
A frase soa como resposta a algo concreto. Não se improvisa esse tipo de declaração. Há pressões reais, disputas reais, e nomes reais por detrás desta crise silenciosa que já não é assim tão silenciosa.
Os descontentes — na sua maioria desmobilizados da guerra dos 16 anos, homens que pegaram em armas por uma causa e hoje sentem que foram esquecidos dentro do próprio projeto político — chegaram ao ponto de ocupar fisicamente delegações do partido em várias províncias. Uma afronta simbólica de enorme peso numa organização com raízes militares.
O congresso que não acontece — e a desconfiança que cresce
O nó central da discórdia tem nome: o congresso da RENAMO.
Momade insiste que só deixará a liderança após uma votação interna num congresso formal. Até lá, mantém-se. Os seus críticos, porém, acusam a direção de protelar deliberadamente todos os procedimentos preparatórios — como quem sabe que o relógio, se parado, nunca toca.
“Ninguém recusou a realização do congresso, ninguém”, afirmou Momade esta sexta-feira. Palavras que soaram mais a defesa do que a afirmação.
O que ficou decidido no encontro de Manica foi a realização do Conselho Nacional ao longo do primeiro semestre de 2025, momento em que deverá ser marcada a data para o Congresso Extraordinário ou Ordinário. Um compromisso. Mas ainda sem calendário concreto.
O peso de três décadas — e a queda do trono da oposição
Durante mais de 30 anos, a RENAMO foi, por definição, a maior força da oposição em Moçambique. Era quase uma lei natural da política nacional. Hoje, esse estatuto pertence a outro partido.
Esta perda histórica é atribuída por muitos analistas e militantes à liderança de Momade, visto por uma fação significativa do eleitorado e dos próprios quadros como incapaz de conduzir o partido aos desafios da nova era política moçambicana.
A ironia é cruel: a RENAMO, que nasceu da guerra e sobreviveu à paz, pode estar a perder a batalha mais difícil — a da sua própria relevância política.
Bissopo, Magibiri, Magumisse — os nomes que pesam
O encontro de Manica reuniu figuras de peso dentro da estrutura partidária: Manuel Bissopo, André Magibiri e Alfredo Magumisse, entre outros. Momade valorizou a presença de todos e lembrou, com um certo alívio, que “é falando que a gente se entende”.
É uma frase simples. Mas num partido onde os canais internos de diálogo estavam, até há pouco, praticamente colapsados, tem o peso de uma declaração de intenções.
“Linchamento de caráter” e a batalha nos tribunais
Momade não poupou palavras para descrever o que sente ser uma campanha interna de destruição da sua imagem. Falou em “linchamento de caráter” e acusou membros do partido de “mancharem a imagem da formação nos tribunais” — uma referência direta ao caso de António Muchanga, que interpôs uma providência cautelar contra a RENAMO após a sua suspensão.
Para o líder, estas querelas internas chegaram num momento especialmente perigoso: com eleições no horizonte, cada divisão interna é um presente oferecido ao adversário.
“Chega de favorecer o inimigo!”, exigiu, num apelo que misturou autoridade com uma nota de desespero contido.
O apelo à união — e a dúvida que persiste
Momade encerrou com uma mensagem que parece ter sido preparada com cuidado:
“O nosso destino é ser alternativa de governação. Coloquemos os superiores interesses do nosso partido acima dos interesses pessoais, porque juntos somos mais fortes.”
São palavras certas. O problema é que palavras certas, ditas no momento errado, por quem perdeu a confiança de parte significativa dos seus, raramente chegam ao coração de quem mais precisa de as ouvir.
A RENAMO chegou a uma encruzilhada. O congresso pode ser a saída — ou mais um campo de batalha.
A perdiz está ferida — mas ainda voa?
A RENAMO sobreviveu a uma guerra civil, a acordos de paz frágeis, à morte do seu fundador Afonso Dhlakama e a múltiplas crises internas. A sua resiliência histórica é inegável.
Mas a crise atual tem uma dimensão diferente: é uma crise de identidade e de liderança, num contexto em que o espaço político da oposição em Moçambique está a ser reconfigurado a grande velocidade.
A pergunta que fica no ar é inevitável: conseguirá a RENAMO realizar o seu congresso a tempo de se reinventar antes que a irrelevância se torne definitiva — ou estamos a assistir, em câmara lenta, ao fim de uma era?
O que pensa sobre o futuro da RENAMO e da oposição em Moçambique? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo com quem acompanha a política nacional.