Disparos contra viatura de Carlitos Cadangue geram onda de repúdio, pressão por investigação séria e renovam debate sobre segurança de jornalistas no país
Um ataque a tiros contra a viatura do jornalista Carlitos Cadangue, correspondente da STV na província de Manica, voltou a colocar Moçambique diante de uma pergunta incômoda: até que ponto a liberdade de imprensa está, de facto, protegida?
O atentado ocorreu quando indivíduos encapuzados, trajando vestes semelhantes às das forças de segurança, abriram fogo contra o veículo do jornalista. Carlitos Cadangue e o seu filho escaparam sem ferimentos físicos, mas o impacto psicológico e simbólico do ataque ultrapassa em muito os danos materiais. Trata-se de uma ameaça directa à vida, à liberdade de informar e ao próprio Estado de Direito.
Um ataque que não surge do nada
O atentado acontece num contexto particularmente sensível. Nos últimos meses, Carlitos Cadangue vinha assinando reportagens de investigação sobre práticas ilícitas no sector mineiro em Manica, expondo impactos sociais, económicos e ambientais associados à exploração ilegal de recursos.
Fontes próximas ao jornalista confirmam que ameaças e alertas já haviam sido reportados antes do ataque, o que agrava a gravidade do caso e levanta suspeitas de que o crime esteja directamente ligado ao exercício do jornalismo de investigação.
Quando tiros são disparados contra um jornalista, o alvo não é apenas uma pessoa, mas o direito coletivo à informação.
Grupo SOICO fala em tentativa de silenciamento
Em comunicado firme, o Grupo SOICO, proprietário da STV, classificou o atentado como uma tentativa clara de intimidação da comunicação social e garantiu que não recuará.
“Atacar um jornalista é atacar a democracia. Silenciar a imprensa é comprometer o futuro do país”, afirma o grupo, reiterando que não se deixará intimidar e continuará a defender a verdade, o interesse público e a legalidade.
O SOICO exige das autoridades uma investigação célere, independente e transparente, com identificação e responsabilização dos autores morais e materiais, além do reforço imediato das medidas de protecção aos jornalistas, sobretudo os que trabalham em contextos de elevado risco.
RENAMO denuncia clima de medo e alerta para a impunidade
Também a RENAMO reagiu com dureza. Em nota pública, o partido afirma que o atentado não pode ser tratado como um caso isolado, inserindo-o num ambiente mais amplo de crescentes ameaças à liberdade de expressão em Moçambique.
Para a RENAMO, a impunidade é combustível para novos ataques, e só uma resposta firme do Estado poderá travar a normalização da violência contra profissionais da comunicação social.
“Sem imprensa livre não há democracia, e sem democracia não há paz duradoura”, sublinha o partido.
Venâncio Mondlane: “A verdade não se cala à bala”
O líder do ANAMOLA, Venâncio Mondlane, recorreu às redes sociais para manifestar solidariedade ao jornalista, numa mensagem carregada de simbolismo político e humano.
Mondlane considera que a sobrevivência de Carlitos Cadangue é um testemunho de coragem e afirma que a violência jamais silenciará quem se coloca ao lado da verdade e do povo.
A frase ecoou rapidamente nas plataformas digitais:
“A verdade não se cala à bala.”
Quelimane junta-se ao coro de repúdio
A condenação ao atentado ultrapassou linhas partidárias e fronteiras provinciais. O Conselho Autárquico da Cidade de Quelimane também repudiou publicamente o ataque, alertando para a degradação das liberdades fundamentais quando jornalistas passam a trabalhar sob ameaça permanente.
A mensagem é clara: não há estabilidade com intimidação armada, nem democracia sem imprensa livre.
Quando o medo tenta substituir a informação
Moçambique conhece bem o custo do silêncio imposto pela força. Ataques contra jornalistas não são apenas crimes comuns; são indicadores perigosos de erosão democrática, onde o medo tenta ocupar o espaço da verdade e da fiscalização do poder.
O caso Carlitos Cadangue volta a expor uma fragilidade estrutural: quem investiga interesses económicos sensíveis corre riscos reais, muitas vezes sem protecção efectiva do Estado.
A resposta que o país deve dar
Este atentado exige mais do que comunicados. Exige acção concreta, investigação séria e um sinal inequívoco de que a vida de jornalistas importa.
A questão que fica é simples e dura:
Se quem informa é silenciado à bala, que futuro resta ao direito do cidadão de saber?
O que você pensa sobre este atentado e o estado da liberdade de imprensa em Moçambique?
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