Disputa sobre entrega de víveres expõe tensões políticas, falhas de coordenação e velhos fantasmas na gestão de crises humanitárias no distrito do Búzi
Ajuda solidária travada ou regras ignoradas?
A resposta às cheias que voltaram a devastar comunidades no distrito do Búzi, em Sofala, ganhou contornos de confronto político. O Movimento Democrático de Moçambique (MDM) acusa as autoridades locais de terem criado entraves à entrega de víveres destinados às vítimas, enquanto a administração distrital rejeita qualquer bloqueio e sustenta que apenas exigiu o cumprimento dos procedimentos legais de emergência.
No centro da polémica estão deputados da bancada do “Galo” na Assembleia da República, que se deslocaram ao Búzi com donativos alimentares e a intenção de acompanhar a sua distribuição.
MDM fala em exclusão e falta de abertura institucional
Segundo o deputado José Domingos, membro da delegação parlamentar, a equipa foi surpreendida por uma postura considerada hostil por parte das autoridades locais assim que estas se aperceberam da presença de deputados do MDM.
“Os víveres não têm cor política. Viemos apenas cumprir um dever solidário. É estranho que, em plena crise humanitária, o Governo adopte este tipo de posição”, afirmou.
De acordo com o parlamentar, a delegação foi impedida de entregar os produtos alimentares e também de acompanhar o processo de distribuição, o que levantou suspeitas sobre a transparência da resposta humanitária.
A comitiva incluía ainda o deputado Eliseu de Sousa. Ambos sublinham que, além da ajuda material, a missão tinha igualmente um mandato de fiscalização das acções de resposta às cheias.
Deputados relatam abandono de centros de acomodação
Os parlamentares do MDM afirmam que a situação se agravou quando alguns responsáveis dos centros de acomodação se ausentaram ao notarem a presença da delegação, atitude interpretada como sinal de fechamento institucional num momento que exigiria cooperação.
José Domingos, recorde-se, foi cabeça-de-lista do MDM nas eleições provinciais de 2024 em Sofala, tendo ficado na segunda posição, facto que, para o partido, não pode servir de pretexto para bloqueios administrativos.
Administração do Búzi rejeita acusações e fala em ordem
Em reacção, o Administrador do Distrito do Búzi, José Mutoroma, negou categoricamente qualquer recusa de donativos. Segundo ele, o que ocorreu foi uma orientação clara para o cumprimento dos protocolos oficiais de gestão de emergências.
“A canalização de víveres para centros de acomodação não pode ser feita de forma aleatória por qualquer pessoa ou grupo”, explicou.
Mutoroma frisou que a distribuição de ajuda deve ser conduzida por entidades legalmente competentes, como o Governo local, provincial ou central, ou instituições de tutela, com destaque para o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).
Planeamento, quotas e risco de caos
O administrador defendeu que a centralização do processo é essencial para garantir equidade, continuidade e segurança na assistência, tendo em conta critérios técnicos como quotas por refeição, por dia e por agregado familiar.
Na sua leitura, permitir entregas directas e não coordenadas pode resultar em desorganização, conflitos e exclusão de beneficiários, especialmente em contextos de elevada vulnerabilidade social.
Acusação de instrumentalização política
José Mutoroma foi mais longe e classificou as acusações do MDM como uma tentativa de instrumentalização política da dor alheia.
“Quando a ajuda humanitária é usada para protagonismo político, o resultado é desinformação e conflito. Não é correcto lançar acusações sem respeitar os procedimentos estabelecidos”, advertiu.
O dirigente apelou a que, em cenários de calamidade, a solidariedade seja exercida com responsabilidade, coordenação e respeito institucional.
Um distrito marcado por feridas abertas
O episódio ocorre num território sensível. O Búzi tem um histórico de tensão na distribuição de ajuda humanitária. Em 2024, pelo menos uma pessoa morreu durante um motim relacionado com o saque de víveres nos armazéns do INGD, após intervenção policial.
Este passado recente reforça os receios das autoridades, mas também levanta questões sobre confiança pública, transparência e inclusão política nos processos de assistência
Conclusão: solidariedade ou controlo excessivo?
O caso expõe uma ferida recorrente em Moçambique: a linha ténue entre ordem institucional e exclusão política em momentos de crise. De um lado, a necessidade real de coordenação; do outro, a percepção de que a ajuda humanitária pode estar a ser filtrada por conveniências políticas.
Num cenário de cheias, fome e deslocamento forçado, a pergunta impõe-se: quem perde quando Estado e partidos não conseguem cooperar?
O que você pensa sobre esta situação?
A ajuda humanitária deve ser totalmente centralizada ou pode haver espaço para iniciativas políticas solidárias no terreno? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo.