Duas semanas de inundações expõem fragilidades estruturais e risco externo pode desencadear nova catástrofe em Gaza e Maputo
Moçambique atravessa um dos momentos hidrológicos mais delicados dos últimos anos. Em apenas duas semanas de cheias intensas, mais de 650 mil pessoas foram afectadas em diferentes pontos do país, enquanto 12 mortes já foram oficialmente confirmadas, segundo dados actualizados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), divulgados na manhã de 26 de Janeiro.
O quadro, que começou de forma silenciosa com a saturação progressiva dos solos, ganhou contornos dramáticos com a subida abrupta dos rios internacionais, alimentados por chuvas persistentes nos países da região austral.
Abertura de barragens nos países vizinhos agravou o impacto
A pressão hídrica não ficou confinada às fronteiras nacionais. Com reservatórios no limite, países vizinhos foram obrigados a abrir comportas de grandes barragens, libertando volumes significativos de água que acabaram por desaguar em território moçambicano.
O resultado foi uma onda de inundação violenta, sobretudo nas províncias de Gaza e Maputo, onde comunidades inteiras viram casas, campos agrícolas e vias de acesso desaparecerem em poucas horas.
Infraestruturas no limite: casas, escolas e hospitais submersos
Os números revelam a dimensão real da crise. De acordo com o INGD:
- Mais de 153 mil casas ficaram inundadas
- 4.212 habitações foram parcial ou totalmente destruídas
- 364 escolas foram afectadas, colocando em risco o início do ano lectivo
Como consequência directa, 217.824 alunos poderão ficar temporariamente fora das salas de aula, num país onde o acesso à educação já enfrenta desafios históricos.
No sector da saúde, 229 unidades sanitárias sofreram danos, dificultando o atendimento às populações afectadas. Até ao momento, 45 pessoas ficaram feridas, muitas delas em zonas de difícil acesso.
Estradas cortadas isolam comunidades e travam ajuda humanitária
A rede viária nacional também não escapou à fúria das águas. Mais de 1.336 quilómetros de estradas apresentam danos significativos, incluindo troços críticos da Estrada Nacional Número Um (EN1).
O corte dessas vias tem um efeito em cascata: comunidades isoladas, atraso na chegada de ajuda humanitária e dificuldades no escoamento de bens essenciais.
Agricultura devastada e perda massiva de animais
Para milhares de famílias que vivem da agricultura de subsistência, o impacto foi devastador. As cheias destruíram 285.720 hectares de áreas agrícolas, comprometendo a segurança alimentar nos próximos meses.
Além disso, mais de 325 mil animais — entre bovinos, caprinos e aves — morreram, agravando a vulnerabilidade económica de zonas rurais já fragilizadas.
Esforços de socorro continuam, mas risco permanece elevado
Apesar do cenário adverso, as equipas de emergência mantêm operações intensivas. Até agora, 19.556 pessoas foram resgatadas, e 99 centros de acomodação permanecem activos, acolhendo cerca de 100 mil deslocados.
Ainda assim, as autoridades admitem que o perigo está longe de terminar.
Barragem na África do Sul representa ameaça adicional iminente
O maior factor de preocupação neste momento vem de fora do país. A barragem de Senteeko, na África do Sul, encontra-se sob pressão extrema, com risco real de ruptura.
Caso o pior cenário se concretize, uma nova vaga de água poderá atingir bacias hidrográficas já saturadas no sul de Moçambique, agravando drasticamente as inundações em Gaza e Maputo.
As autoridades moçambicanas mantêm o alerta máximo, cientes de que milhares de famílias ainda tentam salvar o pouco que lhes resta.
Uma crise que expõe vulnerabilidades antigas
Mais do que um desastre natural, este episódio volta a expor fragilidades estruturais, a dependência de infraestruturas transfronteiriças e a urgência de políticas regionais mais eficazes de gestão hídrica.
Num contexto de mudanças climáticas cada vez mais imprevisíveis, a pergunta impõe-se:
Está Moçambique preparado para lidar com eventos extremos que já deixaram de ser exceção?
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