Militantes denunciam gestão fechada, silêncio sobre fundos eleitorais e decisões tomadas por um círculo restrito próximo da liderança
O Movimento Democrático de Moçambique (MDM) enfrenta uma nova turbulência interna. Um grupo de quadros e militantes do partido acusa a actual direcção de falta de transparência, quebra da colegialidade e afastamento deliberado das estruturas estatutárias, pedindo a convocação urgente do Conselho Nacional para travar o que descrevem como uma degradação do funcionamento interno da organização.
As denúncias constam de uma carta formal, à qual tivemos acesso, onde os signatários alertam para práticas que, segundo afirmam, colidem frontalmente com os princípios fundadores do MDM: abertura, participação e decisão colectiva.
Fundos públicos da campanha eleitoral sob silêncio interno
Entre os pontos mais sensíveis levantados no documento está a alegada ausência de informação sobre os fundos públicos atribuídos ao MDM pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) para a campanha das eleições presidenciais e legislativas de Outubro de 2024.
De acordo com os subscritores, nunca foram comunicados internamente os valores recebidos, nem os critérios usados para a sua distribuição pelos círculos eleitorais. A situação é considerada particularmente grave num contexto em que os partidos políticos estão a ser chamados pelas autoridades a prestar contas sobre a aplicação desses recursos públicos.
Para os autores da carta, o silêncio da direcção cria um ambiente de desconfiança e fragiliza a credibilidade interna do partido.
Elaboração das listas descrita como processo secreto
Outro foco de tensão prende-se com a elaboração das listas para as assembleias municipais, provinciais e da República. Os militantes descrevem o processo como “um dos actos mais secretos já registados no partido”.
Segundo relatam, muitas estruturas e quadros do MDM só tomaram conhecimento das listas finais através das redes sociais, sem debate prévio nem validação nos órgãos competentes. Para os signatários, este método contraria frontalmente a cultura de transparência que o partido sempre defendeu publicamente.
Estruturas afastadas da estratégia da campanha presidencial
A carta aponta ainda para a exclusão das estruturas partidárias na definição do roteiro político e da mensagem central da campanha presidencial de 2024. Órgãos como a Comissão Política e o Conselho Nacional terão sido, segundo os denunciantes, progressivamente marginalizados.
Na prática, alegam, as decisões estratégicas passaram a ser tomadas por um núcleo reduzido de pessoas próximas do presidente do partido, esvaziando os mecanismos colectivos de deliberação.
Acusações de favorecimento em cargos e assessorias
Os subscritores levantam também preocupações quanto à escolha recorrente das mesmas figuras para cargos remunerados e funções de assessoria, criando a percepção de que o partido está a ser gerido como um projecto privado, e não como uma organização política plural e democrática.
Este padrão, afirmam, aprofunda divisões internas e compromete a renovação de quadros.
Ausências inexplicadas e deslocações sem concertação
O documento manifesta igualmente estranheza face à ausência do MDM em dois encontros consecutivos do Conselho Nacional, sem qualquer explicação formal às bases. Soma-se a isso a crítica às deslocações internacionais do presidente, alegadamente realizadas sem concertação prévia com as estruturas do partido.
Outro ponto controverso é a participação do líder do MDM em encontros no Palácio da Ponta Vermelha e no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, sem que, segundo os signatários, tenha havido debate interno sobre os objectivos, o enquadramento político ou a composição dessas iniciativas.
“Queremos ver o MDM voltar a vibrar”
Apesar do tom duro, a carta não fecha portas ao diálogo. Os autores sublinham que o objectivo central é resgatar a vitalidade política do MDM, defendendo que a convocação urgente do Conselho Nacional é a única via para esclarecer as “zonas de penumbra” e restaurar a confiança interna.
O documento termina com um aviso inequívoco: caso o silêncio da direcção persista, os signatários reservam-se o direito de tornar públicas as denúncias junto da imprensa.
Até ao fecho desta edição, a direcção do Movimento Democrático de Moçambique não reagiu oficialmente às acusações.
O MDM enfrenta um momento decisivo. As denúncias expõem fissuras profundas entre a liderança e as bases, colocando em causa a identidade democrática que sempre distinguiu o partido no xadrez político moçambicano. Resta saber se a direcção optará pelo esclarecimento e diálogo — ou se permitirá que a crise se agrave em praça pública.
O que está em jogo não é apenas a gestão interna, mas a própria credibilidade política do MDM.
E você, como avalia estas denúncias? O silêncio da direcção fortalece ou enfraquece o partido? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo.