Negligência dos proprietários, salários em atraso e silêncio da administração criaram um barril de pólvora que acabou em violência, na presença da polícia
A tensão acumulada ao longo de meses no Anantara Bazaruto Island Resort explodiu de forma violenta na manhã de terça-feira (13), quando trabalhadores da unidade turística agrediram e expulsaram o gestor da ilha. Fontes próximas do processo são claras: a origem do conflito não está no gestor, mas sim na negligência reiterada dos proprietários, marcada por incumprimentos legais, falhas contratuais e ausência de respostas às reivindicações laborais.
O episódio lança novas dúvidas sobre a gestão de conflitos laborais no sector do turismo de luxo em Moçambique e expõe fragilidades graves na actuação das autoridades no terreno.
Ambiente de tensão prolongada acabou em violência
De acordo com informações recolhidas localmente, o gestor — descrito como sem poder de decisão sobre salários, contratos e finanças — tornou-se o alvo visível da frustração dos trabalhadores, depois de sucessivos atrasos salariais e promessas não cumpridas pela administração superior do resort.
Na manhã do incidente, cerca de 50 trabalhadores dirigiram-se ao escritório do gestor, exigindo que abandonasse imediatamente a unidade. Sem espaço para diálogo, o cenário rapidamente degenerou.
Testemunhas relatam que o gestor foi agarrado pelos braços e pulsos, retirado à força do escritório, fisicamente contido e escoltado contra a sua vontade até à sua residência dentro da ilha.
Casa invadida e família colocada em risco
Já na residência, a situação agravou-se. Os trabalhadores exigiram que o gestor arrumasse os seus pertences e deixasse a ilha de imediato. O clima tornou-se caótico quando o grupo tentou forçar a entrada pela porta principal.
Segundo as mesmas fontes, os trabalhadores invadiram a casa, empurraram a esposa do gestor e começaram a manusear e a retirar bens pessoais do casal, incluindo roupas. A situação colocou em risco a integridade física da família, num episódio descrito como humilhante e traumático.
Fuga da ilha sob escolta policial
No meio do tumulto, o gestor e a esposa conseguiram reunir alguns bens essenciais e abandonar a Ilha de Bazaruto numa embarcação, sob escolta da polícia local e com apoio de segurança privada.
Já em Vilanculos, o casal foi orientado a deslocar-se directamente ao aeroporto, instruções que foram cumpridas, culminando na saída forçada do país.
Polícia presente, mas incapaz de conter a violência
Um dos aspectos mais graves do caso é que todo o episódio ocorreu na presença e com acompanhamento da polícia, além de agentes de segurança privada. Ainda assim, nenhuma intervenção eficaz foi feita para travar as agressões, levantar os envolvidos ou restaurar a ordem.
Este facto levanta questões sérias sobre:
- a capacidade de resposta das autoridades locais;
- a gestão de conflitos laborais em zonas turísticas isoladas;
- e a protecção de cidadãos e trabalhadores em contextos de tensão social.
Processo criminal segue para a Procuradoria
Por intermédio do seu advogado, o gestor apresentou participação criminal junto da Procuradoria Provincial de Inhambane, denunciando agressões, invasão de domicílio e coacção. O processo encontra-se em fase de apreciação, aguardando-se decisões das autoridades judiciais.
Ao mesmo tempo, fontes ligadas aos trabalhadores insistem que o conflito poderia ter sido evitado caso os proprietários do Anantara tivessem cumprido as suas obrigações legais e dialogado atempadamente com os funcionários.
Turismo de luxo, direitos básicos em falta
O caso do Anantara Bazaruto expõe uma contradição incómoda: resorts de luxo, com tarifas internacionais, operando sobre relações laborais frágeis e tensões ignoradas. Quando o diálogo falha e a administração se ausenta, o resultado tende a ser este — explosivo, descontrolado e com consequências legais graves.
A reposição da legalidade passa agora pelas mãos da justiça. Mas a pergunta permanece:
quantos outros conflitos semelhantes estão a ser empurrados para debaixo do tapete no sector turístico moçambicano?
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