Num cenário marcado por sofrimento, água até ao peito e perdas totais, a presença de líderes no terreno reacende o debate: visitas chegam ou o povo exige mais do que imagens?
As chuvas intensas que castigam a cidade da Matola e outras zonas do país deixaram um rasto pesado: casas inundadas, famílias desalojadas, bens perdidos e um sentimento coletivo de abandono. Foi neste contexto que, nos últimos dias, o Presidente da República, Daniel Chapo, deslocou-se ao Centro de Acolhimento do bairro COB, na Matola, para confortar vítimas das enxurradas, acompanhado pela Primeira-Dama, pelo edil da Matola, Júlio Parruque, e outras figuras governamentais.
A visita foi recebida com reações divididas. Para uns, tratou-se de um gesto necessário e humano. Para outros, foi apenas o cumprimento de uma obrigação básica de quem governa.
Cheias na Matola: perdas totais e fuga às pressas
As enxurradas apanharem milhares de famílias desprevenidas. Em vários bairros, a água entrou de madrugada, sem tempo para salvar documentos, roupa ou alimentos. Muitas pessoas saíram apenas com a roupa do corpo.
Segundo informações avançadas pelo Governo, a abertura das comportas da barragem de Massingir e o transbordo de bacias hidrográficas agravaram a situação, empurrando populações inteiras para centros de acolhimento improvisados, como o do bairro COB.
Ali, o cenário é cru: colchões no chão, crianças assustadas, idosos exaustos e um futuro imediato incerto.
Daniel Chapo no COB: gesto simbólico ou resposta necessária?
Durante a visita, o Chefe do Estado percorreu o centro, falou com famílias afetadas, ouviu relatos de perdas e prestou palavras de conforto. As imagens circularam rapidamente nas redes sociais e abriram espaço para um debate inevitável.
Há quem sublinhe que “o Presidente não fez mais do que o seu trabalho”, defendendo que presença no terreno não pode substituir políticas eficazes de prevenção, drenagem urbana e resposta rápida a calamidades.
Outros reconhecem que, num país habituado a líderes distantes, o simples ato de sair do gabinete climatizado e enfrentar lama, chuva e sofrimento já carrega um peso simbólico relevante.
Uma coisa, porém, é consensual: este não é momento de discursos, mas de ação concreta.
Júlio Parruque desafia as águas e ganha visibilidade
O edil da Matola, Júlio Parruque, tem sido uma das figuras mais visíveis no terreno. Em imagens amplamente partilhadas, vê-se o presidente do município a caminhar em zonas alagadas, ajudar moradores e acompanhar operações locais.
Para muitos munícipes, essa postura aproxima o poder local da realidade vivida nos bairros. Para outros, continua a faltar o essencial: soluções estruturais que evitem que a Matola se transforme num lago sempre que chove durante dias seguidos.
Venâncio Mondlane abre sedes do partido para acolher desalojados
Enquanto isso, fora da esfera governamental, Venâncio Mondlane, líder do partido ANAMOLA, anunciou uma medida concreta: todas as sedes do partido, a nível nacional, estão abertas como centros de acolhimento para vítimas das cheias.
Em declaração pública, Mondlane foi claro:
“Não basta solidariedade em palavras. É preciso abrir portas, acolher pessoas, ajudar na recuperação de pequenas pontes, vias de acesso e garantir um teto para quem perdeu tudo.”
Segundo o dirigente, as delegações do partido nas 11 províncias, distritos, postos administrativos e bairros foram instruídas a agir diretamente no terreno, em coordenação com as comunidades.
Onde estão os outros partidos?
A atuação visível de algumas figuras políticas levantou outra questão sensível: onde estão os restantes partidos?
Nas redes sociais e nos comentários de telespectadores, surgem críticas diretas à ausência de forças como RENAMO e MDM, acusadas de silêncio num momento em que o povo observa atentamente quem está, de facto, ao seu lado.
Em tempos de crise, a política deixa de ser retórica e passa a ser presença.
A imagem que chocou o país: vender debaixo da chuva
Entre tantos relatos, um vídeo tornou-se símbolo da dureza da realidade: mulheres a vender hortícolas debaixo de chuva intensa, com água a cair sem piedade, sem guarda-chuvas, sem abrigo.
Não é teimosia. É sobrevivência.
Essa imagem diz mais sobre Moçambique do que muitos relatórios oficiais. Mostra um país onde, mesmo em plena calamidade, há quem não possa parar, porque parar significa não comer
Gaza submersa e perguntas sem resposta
Enquanto os holofotes se concentram na Matola, a província de Gaza enfrenta uma situação igualmente grave, com zonas inteiras submersas. A pergunta permanece no ar:
- Onde estão os presidentes dos municípios dessas regiões?
- Que ações concretas o Governo central está a implementar?
- As pessoas resgatadas têm comida, mantas e condições mínimas de dignidade?
A gestão da calamidade não termina no resgate. Começa aí.
O povo precisa mais do que visitas
As cheias expuseram fragilidades antigas: planeamento urbano deficiente, drenagem inexistente, resposta lenta e desigual. Visitas confortam, sim. Gestos simbólicos contam. Mas o povo moçambicano precisa de soluções duradouras.
No fim, fica a pergunta que não quer calar:
Quando as câmaras se desligarem e a água baixar, o que vai mudar de facto?
O que pensa sobre a atuação dos líderes políticos durante esta crise?
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