terça-feira, fevereiro 17, 2026
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Governo acusado de vender praia pública e expulsar artesãos em Mossuril: famílias ficam sem sustento

Remoção forçada na Praia da Carrusca levanta suspeitas de ilegalidade, abuso de poder e privatização encoberta do litoral moçambicano

A denúncia caiu como uma bomba em Mossuril, no norte de Moçambique. Cerca de 26 artesãos afirmam ter sido expulsos de forma violenta da Praia da Carrusca, também conhecida por Chocasmar, depois de mais de vinte anos a trabalhar no local. Segundo os afectados, a acção ocorreu sem aviso prévio, diálogo ou qualquer alternativa de reassentamento.

O espaço, dizem, terá sido vendido pelo Governo a um investidor privado, apesar de se tratar de uma área integrada na faixa costeira — classificada por lei como domínio público do Estado.

Expulsão repentina e destruição de meios de trabalho

De acordo com relatos recolhidos pelo jornal Rigor e confirmados por moradores locais, a remoção aconteceu de forma abrupta. Barracas foram demolidas, utensílios queimados e mercadorias destruídas, num cenário descrito como “humilhante e desesperador” pelos artesãos.

“Vivíamos disto. Artesanato, venda de peixe seco, apoio ao turismo. Num dia tínhamos trabalho, no outro ficámos sem nada”, contou um dos afectados.

A maioria das famílias dependia exclusivamente das actividades desenvolvidas na praia para garantir alimentação, educação dos filhos e cuidados básicos de saúde.

Praia pública, negócio privado?

O caso ganha contornos mais graves porque a Praia da Carrusca situa-se numa zona legalmente protegida, onde a ocupação privada está sujeita a restrições rigorosas. A legislação moçambicana é clara: as praias pertencem ao domínio público e devem garantir acesso livre à população.

Os artesãos questionam:

  • Quem autorizou a venda?
  • Em que base legal?
  • Houve consulta comunitária?
  • Existiu compensação ou alternativa económica?

Até ao momento, as autoridades locais não prestaram esclarecimentos públicos.

Investidor estrangeiro e silêncio institucional

Informações avançadas indicam que o terreno terá sido cedido a um cidadão de origem asiática, facto que reacendeu o debate sobre a gestão das zonas costeiras e a facilidade com que áreas estratégicas são entregues a interesses privados, muitas vezes em detrimento das comunidades locais.

Em Mossuril, o sentimento dominante é de revolta. Para muitos residentes, não se trata apenas de artesãos expulsos, mas de mais um episódio de exclusão social mascarado de “desenvolvimento”.

Um símbolo cultural posto em risco

A Praia da Carrusca não é um espaço qualquer. É um dos principais cartões-postais turísticos do distrito, conhecida pelas águas calmas, areia branca e coqueirais extensos. Durante décadas, o local foi ponto de encontro entre turistas, pescadores e artesãos, funcionando como vitrine da cultura local e fonte de rendimento comunitário.

Eliminar essa convivência histórica significa, na prática, apagar um modelo de turismo inclusivo e substituí-lo por um projecto fechado, restrito e socialmente desigual.

Debate nacional reacende-se

O caso volta a colocar no centro da discussão temas sensíveis:

  • Privatização disfarçada das praias
  • Fragilidade da protecção aos pequenos operadores locais
  • Uso da força contra populações vulneráveis
  • Falta de transparência na gestão do património público

Especialistas em ordenamento do território alertam que situações como esta não são isoladas e revelam falhas graves na governação costeira em Moçambique.

Conclusão: desenvolvimento para quem?

A expulsão dos artesãos da Praia da Carrusca levanta uma pergunta incômoda, mas necessária: desenvolvimento para quem e a que custo?
Quando o progresso significa retirar o pão da mesa de famílias inteiras e restringir o acesso a bens públicos, algo está profundamente errado.

O silêncio das autoridades só agrava a desconfiança. E a indignação cresce.

Quem protege os pequenos quando o Estado falha?

O que você pensa sobre este caso? Acredita que as praias em Moçambique estão a ser privatizadas à margem da lei? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo.

 

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