terça-feira, fevereiro 17, 2026
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Inflação volta a ganhar força em Moçambique e pode chegar a 8,4% até 2027, alerta Oxford Economics

Pressões cambiais, retoma do gás e fragilidades fiscais colocam fim ao ciclo de desinflação e reacendem riscos para o custo de vida

Depois de um raro período de alívio nos preços, Moçambique prepara-se para enfrentar um novo ciclo de pressão inflacionista. A consultora internacional Oxford Economics antecipa que a inflação média no país suba para 4,8% em 2026 e acelere de forma significativa até 8,4% em 2027, interrompendo a trajectória de desaceleração observada em 2025.

A leitura dos analistas é clara: os fundamentos que sustentaram a recente estabilidade começam a perder força, num contexto marcado por tensões cambiais, limitações nas reservas internacionais, retoma dos megaprojectos de gás natural e desafios persistentes na política orçamental.

Do alívio temporário ao regresso das pressões

Em 2025, a inflação anual fixou-se em 3,23%, praticamente metade do que o Governo projectava no início do ano. O resultado foi celebrado como sinal de normalização macroeconómica, apoiado por uma política monetária restritiva e por relativa estabilidade do metical.

No entanto, segundo a Oxford Economics, esse equilíbrio é frágil e dificilmente sustentável no médio prazo. A consultora admite que, no primeiro trimestre de 2026, os preços ainda deverão manter-se sob controlo, beneficiando de taxas de juro reais elevadas e da postura prudente do Banco de Moçambique.

Mas os riscos estão a acumular-se. Cheias recentes, perdas agrícolas e choques climáticos ainda não totalmente reflectidos nos preços poderão pressionar sobretudo os alimentos, com impacto directo no custo de vida das famílias.

Metical sob pressão e divisas em escassez

Um dos factores centrais para a aceleração inflacionista está na taxa de câmbio. Para a Oxford Economics, o metical permanece sobrevalorizado, num contexto de reservas externas limitadas e de crescentes exigências de ajustamento macroeconómico, incluindo compromissos assumidos com o Fundo Monetário Internacional.

Esse quadro aumenta a probabilidade de uma desvalorização gradual da moeda em 2026, o que tende a encarecer bens importados, combustíveis e insumos industriais. À medida que o efeito cambial se propaga pela economia, a inflação subjacente deverá ganhar tração, explicando a projecção mais agressiva para 2027.

Gás natural: crescimento hoje, inflação amanhã

A retoma dos projectos de gás natural liquefeito (GNL) surge como outro elemento-chave da análise. Embora sejam decisivos para o crescimento económico e para as exportações no médio e longo prazo, estes projectos costumam gerar pressões inflacionistas no curto prazo.

O aumento da procura interna, maior circulação de dinheiro e pressão sobre serviços, habitação e bens não transaccionáveis tendem a empurrar os preços para cima, sobretudo em zonas directamente ligadas aos investimentos energéticos.

Défice, liquidez e riscos fiscais

A política orçamental também entra na equação. Num cenário de restrições fiscais severas e necessidades crescentes de despesa pública, a Oxford Economics não descarta o risco de financiamento monetário do défice.

Caso esse caminho se concretize, haverá mais liquidez no sistema, alimentando pressões inflacionistas adicionais e reduzindo a eficácia do controlo monetário.

Longe dos picos, mas longe da estabilidade

Apesar do cenário adverso, a consultora sublinha que os níveis projectados ainda ficam abaixo dos picos históricos recentes. Em Julho de 2022, a inflação aproximou-se dos 13%, enquanto em 2023 rondou os 5,3%. Já em 2024, fechou em cerca de 4,15%.

Ainda assim, uma inflação de 8,4% em 2027 volta a colocar Moçambique numa zona de vulnerabilidade elevada, sobretudo num ambiente regional marcado por volatilidade cambial, pressão nos preços dos alimentos e incerteza nos custos energéticos globais.

O dilema do Banco de Moçambique

As projecções da Oxford Economics expõem um dilema difícil para a autoridade monetária. Manter uma política restritiva ajuda a conter a inflação, mas limita o crescimento económico. Afrouxar demasiado cedo pode aliviar a actividade, mas ao custo de desancorar expectativas e acelerar a subida dos preços.

Nos próximos anos, a estabilidade dependerá de um equilíbrio delicado entre controlo da liquidez, gestão cambial prudente e maior coordenação com a política orçamental.

O ciclo de desinflação parece ter sido apenas uma pausa. Se as previsões se confirmarem, Moçambique entra numa fase em que decisões cambiais, fiscais e monetárias terão impacto directo no bolso dos cidadãos. A questão já não é se a inflação vai subir, mas como o país vai lidar com ela sem comprometer crescimento, estabilidade social e confiança económica.

O que pensa deste cenário? A economia moçambicana está preparada para enfrentar uma nova vaga inflacionista? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo.

 

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