Contradições na versão oficial e pressão da família forçam Lisboa a intervir no caso que envolve o administrador do BCI
A morte do empresário português Pedro Ferraz Correia dos Reis, ocorrida em Maputo, está longe de ser um caso encerrado. Perante versões contraditórias, dúvidas públicas e crescente pressão familiar, Portugal decidiu enviar para Moçambique uma equipa da Polícia Judiciária (PJ) e do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses para acompanhar de perto as investigações.
A decisão foi anunciada este sábado, 24 de janeiro, pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros em articulação com o Ministério da Justiça, no quadro da cooperação judiciária entre os dois países.
🇵🇹 Cooperação internacional ativada após contactos com Moçambique
Segundo o comunicado oficial enviado às redações, a equipa portuguesa seguirá para Maputo ainda neste fim de semana, com o objetivo de acompanhar e cooperar tecnicamente com as autoridades moçambicanas na análise das circunstâncias da morte.
“A equipa acompanhará as investigações da morte do empresário, em estreita cooperação com as autoridades judiciárias e policiais”, refere a nota.
Na prática, trata-se de uma intervenção diplomática e técnica rara, geralmente acionada apenas quando subsistem fundadas dúvidas sobre a investigação local ou quando estão em causa cidadãos portugueses em contextos sensíveis.
O que aconteceu no Hotel Polana?
Pedro Ferraz Reis, administrador do Banco Comercial e de Investimentos (BCI), foi encontrado morto na noite de 19 de janeiro, numa casa de banho do Hotel Polana, um dos mais emblemáticos de Maputo.
O corpo apresentava vários golpes de arma branca, facto que levou, numa primeira fase, as autoridades a classificarem o caso como homicídio.
Horas depois, porém, o discurso mudou.
O porta-voz do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), Hilário Lole, afastou publicamente a hipótese de crime, apontando para uma morte sem intervenção de terceiros — versão que rapidamente levantou suspeitas.
❗ Da tese de homicídio ao suicídio em poucas horas
A rapidez com que a investigação foi dada como concluída é um dos pontos que mais inquieta a família.
Segundo a versão oficial divulgada posteriormente, Pedro Ferraz Reis teria:
- Saído do local de trabalho
- Dirigido-se a casa para buscar uma faca
- Comprado mais duas facas em estabelecimentos comerciais
- Adquirido veneno para ratos
- E, por fim, deslocado-se a um hotel para cometer suicídio
Para familiares e amigos, esta narrativa não faz sentido.
Petição pública exige “verdade dos factos”
A indignação levou ao lançamento de uma petição pública, promovida por familiares e pessoas próximas da vítima, exigindo a intervenção direta do Estado português.
O documento, citado pelo Diário de Notícias, foi dirigido ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.
“Perante a incongruência das explicações prestadas (…) exigimos a intervenção do Estado Português para apurar a verdade dos factos”, lê-se no texto.
A petição sublinha ainda que a investigação moçambicana foi encerrada em tempo anormalmente curto, levantando dúvidas legítimas sobre a sua profundidade.
Quem era Pedro Ferraz Reis?
Pedro Ferraz Correia dos Reis vivia em Moçambique há cerca de 10 anos e era uma figura respeitada no setor financeiro.
No BCI, onde integrava o Conselho Executivo, destacou-se pela gestão estratégica e rigor institucional. Antes disso, foi CFO do banco e, no início da carreira, assessorou a administração do então BFE.
Formação e percurso internacional
- Licenciatura em Business Administration
- Mestrado em Finanças pela Universidade Católica Portuguesa
- General Management Programme na Harvard Business School (2011)
- Membro do Conselho da Diáspora Portuguesa desde dezembro de 2023
Numa nota oficial, o BCI lamentou a morte do administrador, destacando o seu elevado padrão ético, liderança discreta e contributo decisivo para a consolidação da instituição.
Um caso longe de estar encerrado
O envio da PJ e de peritos forenses portugueses mostra que Lisboa não aceita respostas frágeis nem explicações apressadas.
Mais do que um caso individual, a morte de Pedro Ferraz Reis levanta questões sensíveis sobre:
- Transparência investigativa
- Cooperação judiciária internacional
- Credibilidade institucional
A pergunta permanece no ar: o que realmente aconteceu naquela noite no Hotel Polana?
E você, o que pensa sobre este caso?
A versão oficial convence? Ou há demasiadas pontas soltas?
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