Seis anos após a reabilitação financiada pela China, o corredor Beira–Machipanda tornou-se um percurso de risco, marcado por buracos, escuridão e revolta crescente de empresários e utentes
A Estrada Nacional n.º 6 (N6), uma das infra-estruturas rodoviárias mais caras já reabilitadas em Moçambique, está a degradar-se a um ritmo alarmante. O corredor Beira–Machipanda, entregue à gestão da Rede Viária de Moçambique (Revimo) em 2019, depois de uma intervenção avaliada em mais de 410 milhões de dólares, apresenta hoje sinais claros de abandono: crateras profundas, iluminação pública inoperante e troços perigosos, sobretudo à noite.
Aquilo que foi apresentado como um eixo estratégico para o comércio regional, a integração económica e o escoamento de mercadorias para o interior e países vizinhos é descrito, por quem lá circula diariamente, como uma via de risco permanente.
Uma estrada “nova” que envelheceu cedo demais
A reabilitação da N6, financiada pelo Exim Bank da China e pelo Estado moçambicano, prometia durabilidade, segurança e fluidez no tráfego. Seis anos depois, o cenário é o oposto. Em vários pontos entre Beira, Dondo, Inchope e Machipanda, o asfalto cedeu, abrindo buracos que obrigam os condutores a manobras perigosas.
A degradação acelerada levanta suspeitas sérias sobre a qualidade da obra, mas, sobretudo, sobre a falta de manutenção contínua, uma das principais obrigações da concessionária.
Empresários acusam: “A Revimo só cobra, não mantém”
A indignação já chegou ao sector empresarial da região Centro. Félix Machado, presidente da Associação Comercial da Beira (ACB), não poupa palavras.
“É inadmissível. Uma estrada reabilitada há poucos anos não pode estar neste estado. A Revimo limita-se a cobrar portagens. A manutenção praticamente não existe.”
A crítica é reforçada por Ricardo Cunhaque, presidente do Conselho Empresarial Provincial (CEP), que chama atenção para outro problema grave: a iluminação pública.
“Há troços inteiros às escuras, inclusive dentro da cidade da Beira. Postes partidos, fios expostos, lâmpadas apagadas. Circular à noite virou um risco de vida.”
Motoristas relatam medo e desgaste diário
Quem conduz na N6 sente o problema na pele. Chapeiros, camionistas e motoristas particulares descrevem uma estrada imprevisível, onde o perigo surge sem aviso.
“À noite é pior. Os buracos aparecem do nada. A estrada está escura e arriscamos a vida dos passageiros”, conta um chapeiro do troço Beira–Inchope.
Outro é ainda mais direto:
“Fugimos de um buraco e entramos noutro maior. Já não há por onde escapar.”
Comércio regional começa a pagar a factura
A N6 é vital para o transporte de carga entre o Porto da Beira e o Zimbabwe, além de servir corredores logísticos para a Zâmbia e Malawi. Camionistas de longo curso alertam que a situação já começa a afectar seriamente o comércio regional.
“Estamos a levar carga internacional por uma estrada que parece cenário de guerra. Um acidente grave é questão de tempo”, diz um motorista.
Com camiões de 30 a 40 toneladas, qualquer buraco pode ser fatal.
“No escuro não se vê nada. Não dá para travar nem desviar. É perigoso para nós e para quem vem em sentido contrário.”
Além do risco humano, há o custo económico: avarias frequentes, pneus destruídos, suspensão danificada e atrasos na entrega de mercadorias.
Portagens alimentam revolta dos utentes
A revolta cresce ainda mais quando o assunto são as portagens, sobretudo a do Dondo. Utentes denunciam que, apesar de existirem cerca de dez cancelas, apenas uma funciona regularmente nos horários de maior fluxo, provocando filas longas e atrasos injustificáveis.
Para muitos, a portagem tornou-se símbolo de injustiça e desleixo institucional: cobra-se caro por uma estrada que não garante segurança, conforto nem fluidez.
Empresários defendem abertamente a suspensão temporária das portagens, até que a Revimo cumpra as obrigações contratuais de manutenção.
Fiscalização sob suspeita
As críticas estendem-se às autoridades de supervisão, acusadas de permissividade. Para os utentes e empresários, é incompreensível que uma concessão privada continue a operar sem prestar contas públicas claras, apesar do evidente incumprimento das responsabilidades básicas.
Revimo evita falar
Contactada pela reportagem, a Revimo em Sofala remeteu as questões para a sede, em Maputo. A administração central, porém, optou pelo silêncio, recusando exercer o direito ao contraditório.
O silêncio contrasta com a revolta crescente nas estradas.
Quem responde pela N6?
A N6 não é uma estrada qualquer. É um corredor estratégico nacional e regional, pago com dinheiro público e financiamentos internacionais. A sua degradação acelerada levanta uma pergunta inevitável: quem está a ganhar com as portagens, enquanto os utentes pagam com o bolso e com a própria segurança?
Até quando os automobilistas vão continuar a circular entre buracos e escuridão, enquanto a responsabilidade fica sem rosto?
O que pensa sobre o estado da N6 e a actuação da Revimo?
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