A prisão de uma jovem por um vídeo no TikTok expõe o colapso das liberdades civis sob o governo de Samia Suluhu Hassan — e transforma uma dança em símbolo de resistência.
Uma dança, um vídeo, uma sentença
Em Dar es Salaam, a jovem empresária Jennifer Bilikwiza Jovin, conhecida nas redes sociais como Nifa, tremia diante de um juiz. O motivo parecia improvável: um vídeo no TikTok. Em poucas horas, o que começou como um momento de descontração virou uma acusação de traição — crime punido com pena de morte na Tanzânia.
No vídeo, Nifa dança sorrindo ao som de “Nywi nywi nywi nywi”, uma paródia de um discurso da presidente Samia Suluhu Hassan, que dizia: “Defenderemos a paz a todo custo.” A música, remixada e viral, ironizava o discurso oficial, sugerindo que o governo que prometia paz, na verdade, silenciava o próprio povo.
Em sua legenda, Nifa escreveu: “Quando as palavras do comício batem diferente.” O vídeo alcançou 2,7 milhões de visualizações em dois dias. No terceiro, ela desapareceu.
A queda de uma influenciadora e o silêncio do medo
A polícia invadiu sua boutique no bairro de Sinza, agrediu funcionários e a levou sem mandado judicial. O telefone de Nifa ficou sobre o balcão, ainda vibrando com notificações. Desde então, o país que antes ria de si mesmo agora treme com medo de fazê-lo.
No dia 7 de novembro, o tribunal de Kisutu estava lotado. Nifa apareceu algemada ao lado de 21 outros acusados — estudantes, vendedores e até um pastor. Todos foram formalmente denunciados por conspiração, incitação e traição digital. O promotor leu as acusações sem hesitar: “Tentaram derrubar o governo através das redes sociais.”
Do lado de fora, manifestantes gritavam “Haki! Haki!” (“Justiça!”), até serem dispersados com gás lacrimogêneo. Dentro da sala, a mãe de Nifa, Mwanaisha Isak, implorava por clemência. Em lágrimas, ajoelhou-se diante das câmeras:
“Mama Samia, perdoe minha filha. Ela não é criminosa, só foi tola. É o sustento da nossa família. Nifa não é inimiga da paz.”
O apelo comoveu o país — mas não o poder.
Da esperança à repressão
Quando Samia Suluhu Hassan assumiu a presidência em 2021, o mundo celebrou sua chegada. A primeira mulher a governar a Tanzânia prometia um “novo amanhecer” após os anos sombrios de John Magufuli. Mas, quatro anos depois, o que resta é um Estado policial digital.
Jornalistas foram presos, partidos opositores dissolvidos e eleições com 98% dos votos oficiais deixaram centenas de mortos. Organizações internacionais relatam mais de 3.000 execuções extrajudiciais. Testemunhas afirmam que valas comuns estão sendo abertas em regiões como Mabande para enterrar corpos de opositores sem identificação.
“Enterro corpos todos os dias. Nunca vi tantos em toda a minha vida”, confessou um trabalhador a uma ONG local sob anonimato.
A era do medo digital
Após as eleições, uma mensagem começou a circular nos celulares tanzanianos:
“Zombar online é incitar rebelião. Traição espera.”
Desde então, centenas foram detidos por memes, curtidas ou simples compartilhamentos. A polícia se orgulha de usar inteligência artificial para rastrear “conteúdos difamatórios”. Na Tanzânia de hoje, rir pode custar a vida.
A prisão de Nifa se tornou o símbolo mais visível dessa nova era. Sua loja, Nifa’s Glow, antes ponto de encontro de jovens empreendedoras, foi lacrada pelo Estado. As vitrines estão quebradas. O letreiro, pichado: “Adversária da paz.”
A reação além das fronteiras
Do outro lado da fronteira, no Quênia, o caso provocou indignação. Hashtags como #FreeNifa e #DanceIsNotACrime viralizaram. Em Nairobi, manifestantes dançaram em frente à embaixada da Tanzânia em protesto.
A Amnesty International classificou o caso como uma “aberração jurídica grotesca”. A União Africana, geralmente cautelosa, declarou que as últimas eleições tanzanianas foram “antidemocráticas e repressivas”.
Mesmo assim, dentro do país reina o medo. O humor é visto como dissidência, e a arte, como ameaça.
A dança que o regime não consegue apagar
Enquanto o governo tenta sufocar o riso, o caso de Nifa reacende uma pergunta antiga: quão frágil é a liberdade quando uma dança pode abalar um regime?
O vídeo foi deletado, as contas suspensas e os apoiadores silenciados. Mas a música — e o gesto de Nifa — continuam ecoando pelas redes da diáspora tanzaniana, que agora a trata como símbolo de resistência.
“Se dançar é traição, então a verdade é revolução.”
O governo pode apagar a música, mas não o ritmo. O ritmo de uma geração que se recusa a dançar em correntes.
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