Líder da ANAMOLA questiona credibilidade do Executivo e diz que proposta da ferrovia norte-sul não é original
Maputo — O anúncio do Governo sobre a construção de uma linha férrea que ligará Moçambique de Norte a Sul continua a gerar forte controvérsia política. Desta vez, foi o presidente do partido ANAMOLA, Venâncio Mondlane, quem veio a público acusar o Executivo de se apropriar de uma ideia que, segundo afirma, já defendia há anos no debate público nacional.
Falando à imprensa na quarta-feira (4), em Maputo, Mondlane foi frontal: considera que o projecto apresentado pelo Ministério dos Transportes e Logística não passa de um plágio político, reciclado sem o devido reconhecimento e sem garantias reais de execução.
“Ideias recicladas não constroem desenvolvimento”
De acordo com o líder da ANAMOLA, a proposta governamental anunciada a 31 de Janeiro pelo ministro João Matlombe surge num contexto em que soluções semelhantes já vinham sendo discutidas fora da esfera governativa, incluindo em plataformas políticas independentes.
“Não se pode fingir inovação quando se está apenas a reaproveitar ideias alheias”, afirmou Mondlane, defendendo maior transparência sobre a origem dos projectos estratégicos e, sobretudo, sobre a capacidade efectiva do Governo para os concretizar.
Para o político, o problema não é apenas a autoria das ideias, mas a ausência de um histórico credível de execução de grandes infra-estruturas por parte do actual elenco governativo.
Críticas duras à nomeação de João Matlombe
Mondlane foi particularmente severo ao avaliar o desempenho e a trajectória do ministro dos Transportes e Logística, a quem classificou como “um autêntico desastre” na gestão pública.
Segundo ele, a passagem de João Matlombe pela governação municipal deixou um rasto de promessas não cumpridas e projectos estruturantes que nunca saíram do papel.
Projectos urbanos que nunca avançaram
Entre os exemplos citados estão:
- A criação de faixas exclusivas de rodagem
- A implementação de um sistema BRT (Bus Rapid Transit)
- A introdução de um comboio eléctrico urbano
Para Mondlane, esse histórico levanta dúvidas legítimas sobre a competência técnica e política do ministro para liderar um projecto ferroviário nacional avaliado em milhares de milhões de dólares.
“Quem não conseguiu transformar uma cidade, dificilmente vai transformar um país inteiro”, afirmou.
Ferrovia norte-sul: promessa antiga, execução incerta
O projecto de uma ferrovia contínua ligando o Norte ao Sul de Moçambique não é novo. Analistas recordam que a ideia surge ciclicamente no discurso político, sobretudo em momentos de maior pressão pública por soluções estruturais para o transporte, logística e integração económica.
No entanto, até hoje, nenhum Executivo conseguiu apresentar um plano técnico, financeiro e institucional sólido que tornasse essa ambição viável a médio prazo.
Mondlane alerta que repetir anúncios sem bases concretas apenas alimenta expectativas irreais e mina a confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.
Silêncio do Governo mantém polémica acesa
Até ao fecho desta matéria, o Ministério dos Transportes e Logística não tinha reagido oficialmente às acusações feitas pelo líder da ANAMOLA. O silêncio do Executivo acaba por prolongar o debate, agora centrado não só na viabilidade da ferrovia, mas também na credibilidade política de quem a anuncia.
Especialistas defendem que, perante a dimensão do projecto, o Governo deveria apresentar estudos públicos, fontes de financiamento claras e um calendário realista — algo que, até agora, não aconteceu.
Projecto nacional ou arma política?
A polémica em torno da ferrovia norte-sul expõe um problema maior: em Moçambique, grandes projectos continuam a ser anunciados mais como slogans do que como políticas públicas sustentadas.
A questão que fica é simples e incómoda:
estamos perante um verdadeiro plano de desenvolvimento nacional ou apenas mais um anúncio político sem lastro técnico?
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