Líder da ANAMOLA acusa o Banco Central de manter uma taxa de câmbio artificial, mascarar a inflação real e agravar a escassez de divisas no país
Escassez de divisas expõe fraturas da política monetária
A falta de moeda estrangeira voltou ao centro do debate económico em Moçambique após novas declarações públicas de Venâncio Mondlane, que acusa o Banco de Moçambique (BM) de manipular a taxa de câmbio e apresentar uma imagem irreal do custo de vida no país. As críticas foram feitas num vídeo divulgado nas redes sociais, onde o político desmonta, ponto por ponto, a narrativa oficial sobre a disponibilidade de divisas.
Segundo Mondlane, a escassez já não é apenas uma perceção: é um facto vivido diariamente por empresários, viajantes e operadores económicos, que enfrentam dificuldades crescentes para aceder ao dólar e a outras moedas fortes. O contraste com o discurso do governador do Banco Central, que atribui o problema a “práticas irregulares” dos bancos comerciais, é total.
“Não é um problema de má conduta bancária. É um problema estrutural de confiança e de política económica”, sustenta.
Uma economia a perder capacidade de gerar divisas
Insegurança e fuga de capitais
Para Venâncio Mondlane, a raiz da crise está na erosão da capacidade do país gerar divisas, num ambiente marcado por raptos, sequestros e extorsões contra empresários. Este clima, afirma, empurra investidores para fora do sistema formal e incentiva a fuga de capitais, reduzindo a entrada de moeda estrangeira na economia.
A isto soma-se, segundo o líder da ANAMOLA, uma gestão cambial que não reflete a realidade do mercado.
“Moçambique vive, na prática, com câmbio fixo”
Divergência entre taxa oficial e mercado paralelo
Mondlane acusa diretamente o Banco de Moçambique de operar com métodos herdados do período do partido único, mantendo uma taxa de câmbio artificialmente controlada. Oficialmente, o dólar ronda os 65 meticais. Fora dos canais formais, porém, a moeda norte-americana já é negociada entre 70 e 80 meticais, dependendo da procura.
“O valor real do dólar não é 65 meticais. Isso é um número administrativo, não económico”, afirma.
Esta diferença, longe de ser marginal, revela uma distorção profunda entre os indicadores oficiais e a economia real. Para o político, trata-se de uma estratégia deliberada para subestimar a inflação e suavizar estatísticas que não resistem à experiência quotidiana das famílias.
Inflação mascarada, custo de vida real
Quando os números não batem com a vida das pessoas
Ao manter um câmbio que não corresponde às forças do mercado, o Banco Central estaria, segundo Mondlane, a falsear o verdadeiro custo de vida. Produtos importados, combustíveis, medicamentos e insumos básicos encarecem no terreno, enquanto os dados oficiais insistem numa inflação “controlada”.
O resultado é um divórcio entre os relatórios técnicos e a realidade das prateleiras vazias, dos preços instáveis e do poder de compra em queda.
Liquidez travada e bancos pressionados
O efeito dominó no sistema financeiro
Outro ponto levantado é a política de absorção de liquidez. Mondlane afirma que os bancos comerciais são obrigados a imobilizar grandes volumes de recursos no Banco de Moçambique, o que reduz a capacidade de crédito e provoca uma secura generalizada de liquidez.
Na prática, menos dinheiro a circular significa menos investimento, menos emprego e menor dinamismo económico — um ciclo que se retroalimenta.
“Isto não é regulação saudável. É uma forma de controlo excessivo que estrangula o sistema financeiro”, acusa.
“Ditadura do sistema financeiro”?
Críticas duras ao papel do Banco Central
Ao concluir, Venâncio Mondlane usa palavras fortes para caracterizar o cenário: uma “ditadura do sistema financeiro”, onde decisões centralizadas se sobrepõem à lógica económica e às necessidades reais do país. As acusações não são novas — remontam ao período em que era deputado —, mas ganham agora novo peso num contexto de maior pressão social e económica.
Conclusão: até quando os números vão contrariar a realidade?
A denúncia levanta uma questão central: é sustentável manter uma política cambial desconectada do mercado sem aprofundar a crise de confiança? Entre estatísticas oficiais e a vida real, cresce um fosso que ameaça a credibilidade das instituições e o equilíbrio económico do país.
Num contexto em que o cidadão sente no bolso o peso das decisões macroeconómicas, o debate deixa de ser técnico e passa a ser político e social.
Quem ganha com um câmbio artificial — e quem paga a conta?
E você, o que pensa sobre isso?
A taxa de câmbio reflete a realidade da economia moçambicana ou está a esconder o verdadeiro custo de vida? Deixe a sua opinião nos comentários e partilhe este artigo.